Sono Ruim ou Alteração Cardíaca no Smartwatch? Evite a Ansiedade
Os dispositivos vestíveis, como smartwatches e anéis inteligentes, têm se tornado cada vez mais populares na monitorização da saúde. Eles fornecem dados valiosos sobre a frequência cardíaca, qualidade do sono e níveis de estresse. No entanto, esses dados podem, paradoxalmente, gerar ansiedade e comportamentos hipocondríacos, especialmente quando os usuários se tornam obcecados por suas métricas.
O impacto dos wearables na saúde mental
Estudos recentes indicam que a utilização excessiva de dispositivos de monitoramento de saúde pode levar a um ciclo de preocupação constante. A antropóloga cultural Natasha Schüll, professora da Universidade de Nova York, destaca que os dados gerados por esses dispositivos podem se tornar “agenciadores da vida individual”. Isso ocorre quando os usuários, em busca de informações sobre sua saúde, passam a depender excessivamente dos dados, deixando de lado a própria autonomia na tomada de decisões.
Um exemplo disso é o relato de Maria Luiza Senhorinho, uma analista de marketing de 29 anos, que se tornou viciada em monitorar seus dados de saúde. Segundo ela, a necessidade de preencher os gráficos do seu smartwatch a levou a uma autocobrança constante, que se estende desde a ingestão de água até o controle da qualidade do sono. Essa pressão para obter resultados pode gerar um estado de ansiedade, onde a preocupação com os números supera o bem-estar real.
O ciclo vicioso da ansiedade
A relação entre o uso de wearables e a ansiedade foi objeto de um estudo da Escola de Medicina da Universidade da Carolina do Norte, que revelou que 20% dos pacientes com fibrilação atrial que usavam dispositivos de monitoramento apresentaram sinais de ansiedade. A psicóloga Lindsey Rosman, que liderou a pesquisa, observa que muitos pacientes acabam buscando atendimento médico desnecessário devido a notificações alarmantes de seus dispositivos.
Um relato notável incluído no estudo descreve uma paciente que fez impressionantes 916 eletrocardiogramas em um ano, frequentemente visitando o pronto-socorro após receber resultados inconclusivos de seu smartwatch. Este comportamento é um exemplo claro do que os pesquisadores chamam de Modelo de Incerteza e Antecipação da Ansiedade, onde a superexposição a dados provoca um aumento da preocupação e, consequentemente, eleva a própria frequência cardíaca.
Os perigos da ortossonia
Além da ansiedade relacionada à frequência cardíaca, a obsessão por dados de sono também tem gerado preocupações. O fenômeno conhecido como ortossonia refere-se à busca obsessiva por um “sono perfeito”, que pode resultar em insônia. O professor Alan Luiz Eckeli, da Universidade de São Paulo, explica que a preocupação excessiva com a qualidade do sono pode aumentar a hipervigilância e o estado de alerta, dificultando o relaxamento necessário para dormir.
Um estudo da Universidade de Bergen revela que 14% dos usuários de aplicativos de monitoramento de sono desenvolveram preocupações acerca da qualidade do seu descanso, enquanto 11,2% relataram estresse associado aos dados coletados. Isso demonstra que, em vez de promover um sono restaurador, o monitoramento constante pode agravar problemas de sono.
Buscando um equilíbrio saudável
Diante dos riscos associados ao uso excessivo de dispositivos vestíveis, é crucial que os usuários desenvolvam uma relação mais saudável com a tecnologia. Especialistas sugerem que aqueles com tendências ansiosas devem ter cuidado ao usar esses dispositivos, pois eles podem intensificar a hipervigilância. O psicólogo Cristiano Nabuco enfatiza a importância da psicoeducação como um método para entender e gerenciar os gatilhos da ansiedade.
Estratégias como a respiração profunda, exercícios de relaxamento e a prática de atividades ao ar livre podem ajudar a quebrar o ciclo de ansiedade. Nabuco recomenda que as pessoas, ao fazer caminhadas, deixem seus dispositivos em casa, permitindo que se desconectem e aproveitem o momento presente.
Em resumo, os wearables podem ser ferramentas úteis para monitorar a saúde, mas seu uso deve ser equilibrado com a consciência dos impactos psicológicos que podem gerar. O foco deve estar na promoção do bem-estar e não na obsessão por métricas.
Referências:
- Estudo da American Heart Association sobre ansiedade em pacientes com fibrilação atrial.
- Pesquisa da Universidade de Bergen sobre o impacto de aplicativos de monitoramento de sono.
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